A caverna
No imaginário popular existem muitos mistérios sobre as cavernas. Um destes mistérios é a compreensão da caverna como um lugar sagrado. Nesta nossa pequena conversa, tomarei emprestada a ideia de caverna como este lugar sagrado. A caverna deste ensaio não será aquela forma geológica de cavidade rochosa com dimensões que possam permitir a entrada de um ser humano, estudadas pelos geólogos. A caverna proposta aqui é uma dimensão também permitida aos humanos, mas um lugar um pouco diferente do buraco rochoso. Ela é a dimensão da alma humana que só pode ser alcançada através do silêncio do coração, para que se possa chegar ao profundo sentimento mais primitivo e verdadeiro que mora nas entranhas do ser.
Visitar esta caverna é tarefa mais difícil que penetrar na cavidade geológica. A dificuldade está em ter contato com aquilo que não é trivial: o pedaço de nós que fica latente mas submerso, nossa sombra (Carl Gustav Jung). A caverna metafórica é o espaço encontrado nos momentos de solidão. Naqueles momentos em que a conversa é face a face com a nossa mais verdadeira imagem. Aquela que não nos conta mentiras. Nestes encontros, os disfarces são desnecessários porque não funcionam. O auto engano não consegue fazer seu trabalho. É neste momento que surge, para quem decide prosseguir no caminho de enfrentar e conhecer a si mesmo, o diálogo mais frutífero de uma vida: um bate papo profundo com a natureza do próprio ser.
Nos momentos do cotidiano nosso ser está a serviço das tarefas da sobrevivência, o que inclui o contato, muitas vezes superficial e acelerado, em sociedade. Na atualidade, constatamos uma sociedade seriamente enferma diante de tantos avanços tecnológicos e retrocessos de valores civilizados. Adoecemos nas exigências e constataçōes das barbaridades do mundo. Sofremos com nossa impotência diante das escolhas equivocadas do outro e com aquilo que possa nos afetar. Somos tomados por sentimentos que, muitas vezes, não encontram espaço de alívio. É o mundo, é a vida.
Alguns homens de nosso tempo, voltam então para a moradia ancestral: a caverna. O espaço sagrado para “dar um tempo”. É aí que a viagem se inicia. A viagem do encontro com o mais profundo de todos os alicerces: a própria alma. Neste espaço os pensamentos não encontram a referência do outro, a resposta que nos consola apoiando nossas escolhas, criticando nossos julgamentos distorcidos, aliviando nossa culpa ou nossos medos. Na caverna, não há como recorrer a isso. Nossos pensamentos encontram somente nossas próprias referências e assim vamos encontrando revelações sobre quem somos ou quem podemos ser. Não se enganem, isso pode ser assustador, ao mesmo tempo que é magnífico. Assustador porque nossos pensamentos não caminham sempre por jardins floridos. Magnífico porque, no silêncio, podemos descobrir possibilidades de escolhas mesmo dentro de nossas cercanias. Algum amadurecimento então é possível pelas avenidas que podemos encontrar no caminho interior. Neste trajeto encontramos a visão das mudanças possíveis, da aceitação de nossos limites e possibilidades, de nossos tortos e direitos, de nossas ambivalências e ambiguidades. Nossa face aparece sem espelho. A visão não tem anteparo, não é devolvida por ninguém. É nua e crua. Sem expressões de conforto ou alívio. Aviso: isso pode amadurecer mas também enlouquecer: cuidado!
O amadurecimento é possível quando os períodos de encavernamento se alternam com o convívio social que nos alimenta de amor e carinho, no encontro com amigos, no trabalho que oferecemos ao mundo, no encontro com um terapeuta que nos ensina o valor de estarmos acompanhados de nós mesmos, no amor da família. A loucura pode surgir pelo afastamento da vida que promove uma solidão adoecida, encarceramento da alma na caverna sem “sair do buraco”. A boa caverna tem a porta aberta, sua única forma de condenação é a nossa liberdade, como diria Sartre, “o homem está condenado a ser livre”, para entrar e sair da caverna a hora que quiser. Eu defendo uma boa caverna.
Andreia Maraglia

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