Descobrimentos
O
período da história entre o século XV e o início do século XVII constitui-se
como a era dos descobrimentos. Os
exploradores, motivados pela oportunidade de novas perspectivas de comércio,
saíam em busca de terras para conquistar.
Creio que estes navegantes, ávidos por universos desconhecidos, tenham
encontrado surpresas e dificuldades pelo caminho. Não pretendo explanar aqui
tudo o que penso sobre esta tomada de outras terras e desta exploração, muitas
vezes violenta, dos territórios deste mundo.
Tenho feito uso de metáforas em meus escritos para dialogar sobre temas
da existência humana e, como de costume, usarei também neste pequeno texto, a idéia
de navegação e descobrimentos como uma metáfora: navegar e descobrir é o
exercício de encontrar o novo e aprender com ele. A conquista é o aprendizado e o
amadurecimento. Também neste ensaio os
termos navegante e barco representam figurativamente o homem como um todo.
Ao
nascer somos lançados neste mundo e então, como dito por Sartre, condenados à liberdade
e à responsabilidade para trilhar o caminho da existência. Estamos sempre em processo e, forçosamente,
somos navegantes dos mares profundos da aventura humana. Então, a partir do ímpeto do primeiro choro,
inaguramos a árdua tarefa de crescer.
Árdua porque crescer significa ter contato com o desconhecido, sofrer
pela tentativa de adaptação a novos contextos, descobrirmos sobre nossa morada no
mundo e sobre o mundo que também nos habita.
Nós, humanos navegantes da existência, precisamos admitir a
possibilidade de esforço e dor para continuar caminhando.
Vamos
então imaginar dois tipos de navegantes: o que anseia descobrir sobre o mundo e
investiga, com preciosa humildade, as condições de seu barco e aquele navegante
que espera que o vento o leve ao encontro da desejada conquista, acreditando
não precisar avaliar sua embarcação. O
primeiro navegante é o homem que olha para si durante a caminhada da vida. O segundo, é aquele que coloca no outro a
responsabilidade por sua existência e, soberbamente, se nega a avaliar o próprio
barco imaginando-o invencível. O
primeiro se apropria da condição de liberdade, vulnerabilidade e
responsabilidade inerentes ao existir humano e o segundo aprisiona-se na ilusão
de negar a própria alforria. A liberdade
é o exercício da compreensão de si no mundo.
Compreensão dos papéis desempenhados na tarefa do existir. É a imersão
na percepção dos próprios sentimentos, intenções, valores, limitações,
possibilidades e enganos. Liberdade é olhar para si e apropriar-se do particular
projeto de vida, da rota de navegação, do destino a ser alcançado, dos perigos
e prazeres do viver. Aprisionamento é imaginar-se
como vítima do mundo, vítima da ventania ou do mar revolto. É negar-se a
aceitar a liberdade e responsabilidade de ser o comandante da embarcação,
senhor da própria vida. O aprisionamento é a escolha da ilusão em detrimento da
realidade do viver, é aprisionar-se na nefelibática escolha de viver nas
nuvens. A aceitação da liberdade e da responsabilidade,
implicadas na tarefa do existir, é uma escolha assim como mergulhar na ilusão
de uma imagem distorcida de si também é.
A
rota de navegação, neste ensaio, é também uma figura metafórica do projeto de
vida do homem. Só o navegante que admite
a realidade do próprio barco e a necessidade de reconstrução de seu modo de ser
vai conseguir chegar a apropriar-se do território que irá descobrir sobre
si. Sob o olhar existencialista “o homem
é um conjunto de possibilidades que vai se atualizando no decorrer de sua
existência. Ele é livre para escolher
entre muitas possibilidades, mas a sua escolha é vivenciada como inquietação,
pois a materialidade de seu existir não lhe permite escolher tudo – cada
escolha implica a renúncia de muitas possibilidades.” (FORGHIERI, 1984, p.17). A onipotência é uma ilusão. Não podemos ter
tudo. A forma como o homem lida com o
que lhe falta dirá como este homem existe: numa soberba ilusão ou num processo
de aprendizagem realista.
E o
navegante que escolhe não ver o próprio barco? Certamente sairá em desvantagem
para o mar, sem consciência das avarias e limitações de sua embarcação. Rema
em prejuízo, pois barco furado afunda. Não experimenta as angústias das livres
ondas do oceano por muito tempo pois não se responsabiliza pela condição
angustiante de ser si próprio. Barco furado não navega: ou submerge ou fica no
cais. O homem que não olha para si não
amadurece, só envelhece e definha. Nosso
destino absolutamente real e concreto é a morte do corpo, mas o homem que não
examina o próprio ser morre num corpo vivo.
Este é o maior prejuízo da vida.
Desconstrução e ressignificação contínua são
exercícios de liberdade: no passado foi assim, hoje é possível fazer diferente;
eis o processo. O homem é ação e por
isso não fica bem parado no cais, chega a ser deselegante viver com medo,
olhando o mar sem adentrá-lo ou sair irresponsavelmente num barco furado e à
deriva frente à possibilidade de afundar e
afogar-se vivo.
O
marinheiro que faz uma autoavaliação entra no mar com mais segurança. Não uma
tarefa estanque ou finalizada, mas a segurança de ser dono de seu destino, de
suas angústias e de sua ação. A
segurança da responsabilidade por suas escolhas, do amadurecimento de perceber
a vida tal como ela se revela: feroz e bela, realista e poética, cheia de amor
e da falta dele, amedrontada e corajosa, angustiada e serena. Tão bela e
contraditória vida. O marinheiro seguro
e maduro a reconhece sem disfarces, olha o mar em sua profundidade
respeitando-o como respeita a si mesmo.
No
último dia deste ano de 2018 estarei olhando o mar compreendendo que navego
pela vida como um marinheiro e seu barco em reconstrução. Muito grata ao meu barco que ainda continua por
aqui a me permitir navegar, descobrir e aprender. E certa de que um dia esse
barco encontrará o ocaso de sua existência, espero que ele e sua história de
navegação sejam dignos de serem lembrados com amor num pôr-do-sol.
Andreia Maraglia
Versão revisada em
07.04.2019
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