domingo, 7 de abril de 2019

O Mar


O mar

Sentava-me à beira do mar num canto ainda sossegado do Rio de Janeiro.  Era noite de um lindo domingo, mas sem vivacidade. Comecei a observar um homem numa posição de yoga na areia da praia.  Apoiava-se numa canga estendida e fazia movimentos precisos que pareciam pensar por ele. Imaginei seu corpo como o de um gato se espreguiçando.  Presumi que ele pudesse estar hedonisticamente aproveitando o êxtase experimentado pelo animal no ato de estimular-se. Ele fazia isso na frente do mar e, terminando seus exercícios, mergulhou e nadou vigorosamente por muito tempo. Pensei que ele poderia estar experimentando muita liberdade neste momento.  Liberdade oferecida pelo mar. Imediatamente surgiu-me o desejo de escrever esta crônica.  E começo por tomar o mar como uma metáfora da liberdade.
Os mares e oceanos ocupam um espaço de aproximadamente 362 milhões de quilômetros quadrados com grande profundez.  A liberdade também é assim.  Pode ser extensa mas exige profundidade e respeito.  Clamamos por liberdade em todas as esferas e tempos da vida.  Quando crianças, ao alcançarmos a capacidade dos primeiros passos, não compreendemos ainda a dimensão do feito.  Não sabemos andar mas ousamos ir em frente: caindo, tropeçando, levantando, caindo de novo e finalmente, passo a passo, vivenciamos alguma consciência do desconhecido. 
Em outro tempo, já de pé, o humano começa a descobrir o mundo.  Com as mãos e usando o aparato de movimento já mais amadurecido, o bebê manuseia com mais facilidade tudo o que o rodeia: pequenos móveis, tapetes, brinquedos, tomadas e muito mais.  Seu universo situa-se, na maioria das vezes, na residência.   E dentro deste significativo e pequeno universo vai experimentando, por força da natureza humana, as primeiras sensações de conquista, liberdade e medo. 
Estas sensações caminham passo a passo quando também experimentamos a fala.  A capacidade de articular linguagem nos oferece uma ferramenta poderosa para dar conta de nossos desejos e comunicá-los ao outro.  A criança começa a usar a linguagem para pedir comida, para fazer birra por não ter podido alcançar algum brinquedo, para expressar amor, dor, medo e insegurança.  A expressão de sentimentos por via da fala facilita sua vida daí por diante até a morte. Mas é aí que o “bicho pega”, expressão muito apropriada usada pelos cariocas. A fala pode libertar mas também aprisionar. Liberta na medida em que funciona como ferramenta para a comunicação e aprisiona quando, o que é proclamado sobre nós, vira sentença. O caminhar e o falar parecem funcionar como um impulso para descobrirmos os universos antes desconhecidos.  Um anseio de liberdade quase sempre em negociação com o medo. E assim caminhamos por toda a vida até o momento do definitivo repouso.
Agora vamos nos transportar para a frente do mar, ou melhor, imaginemos que agora estamos diante do mar pela primeira vez.  Olhando aquela imensidão aquática e pensando o que pode haver ali, submerso.  Sentimos desejo de mergulhar, sabemos nadar, sentimos vontade de esticar o corpo para frente e para os lados, embalados pelo suave barulho das ondas.  Experimentamos uma vastidão de sentimentos ambíguos como o prazer de avançar pelo oceano aberto e o temor do desconhecido.  Sentimos prazer e medo.  Prazer pela possibilidade de nos libertarmos do peso de nosso corpo, circunscrito ao apoio dos pés fixados na terra e medo pelo que pode existir na profundidade do oceano vasto e livre. O encontro com a possibilidade de liberdade é assim, como um homem na frente do oceano: pode sentir-se livre ao adentrar nele, mas precisa ter responsabilidade para acatar o desconhecido e preservar a vida.
Libertar-se é um exercício de força.  Força para conversar com a angústia inexorável que nos habitará sempre nos momentos de escolha e decisão.  Os poetas libertam-se pela via da palavra que despertam sentimentos. Os atores pela incorporação vasta de poderem viver outras vidas e estarem em outro alguém. Os filósofos pela vastidão da compreensão do pensamento humano, que é como um mar bem fundo a ser descoberto. Os cientistas por construir conhecimento para melhorar a vida humana.  Os músicos quando caminham pela matemática libertadora e sensível  do som. Os profissionais da saúde quando acolhem o corpo e alma para oferecer cuidado. E todos nós, ainda valorativos mortais, quando experimentamos buscar sentidos autênticos e desacorrentados para nossas existências. 

Meu mergulho termina por aqui com as palavras de Osho:
"Dizem que antes de um rio entrar no mar, ele treme de medo. Olha para trás, para toda a jornada que percorreu, para os cumes, as montanhas, para o longo caminho sinuoso que trilhou através de florestas e povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto, que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre. Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. O rio precisa de se arriscar e entrar no oceano. E somente quando ele entrar no oceano é que o medo desaparece, porque apenas então o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas de tornar-se oceano."


Andreia Maraglia




4 comentários:

  1. Parabéns, Andreia! Seus textos clamavam por um blog. Continue escrevendo, postando. Um forte abraço.

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