O
mar
Sentava-me
à beira do mar num canto ainda sossegado do Rio de Janeiro. Era noite de um lindo domingo, mas sem
vivacidade. Comecei a observar um homem numa posição de yoga na areia da
praia. Apoiava-se numa canga estendida e
fazia movimentos precisos que pareciam pensar por ele. Imaginei seu corpo como
o de um gato se espreguiçando. Presumi que
ele pudesse estar hedonisticamente aproveitando o êxtase experimentado pelo
animal no ato de estimular-se. Ele fazia isso na frente do mar e, terminando
seus exercícios, mergulhou e nadou vigorosamente por muito tempo. Pensei que
ele poderia estar experimentando muita liberdade neste momento. Liberdade oferecida pelo mar. Imediatamente
surgiu-me o desejo de escrever esta crônica.
E começo por tomar o mar como uma metáfora da liberdade.
Os
mares e oceanos ocupam um espaço de aproximadamente 362 milhões de quilômetros
quadrados com grande profundez. A
liberdade também é assim. Pode ser
extensa mas exige profundidade e respeito.
Clamamos por liberdade em todas as esferas e tempos da vida. Quando crianças, ao alcançarmos a capacidade
dos primeiros passos, não compreendemos ainda a dimensão do feito. Não sabemos andar mas ousamos ir em frente:
caindo, tropeçando, levantando, caindo de novo e finalmente, passo a passo,
vivenciamos alguma consciência do desconhecido.
Em
outro tempo, já de pé, o humano começa a descobrir o mundo. Com as mãos e usando o aparato de movimento
já mais amadurecido, o bebê manuseia com mais facilidade tudo o que o rodeia:
pequenos móveis, tapetes, brinquedos, tomadas e muito mais. Seu universo situa-se, na maioria das vezes,
na residência. E dentro deste
significativo e pequeno universo vai experimentando, por força da natureza humana,
as primeiras sensações de conquista, liberdade e medo.
Estas
sensações caminham passo a passo quando também experimentamos a fala. A capacidade de articular linguagem nos
oferece uma ferramenta poderosa para dar conta de nossos desejos e comunicá-los
ao outro. A criança começa a usar a
linguagem para pedir comida, para fazer birra por não ter podido alcançar algum
brinquedo, para expressar amor, dor, medo e insegurança. A expressão de sentimentos por via da fala
facilita sua vida daí por diante até a morte. Mas é aí que o “bicho pega”,
expressão muito apropriada usada pelos cariocas. A fala pode libertar mas
também aprisionar. Liberta na medida em que funciona como ferramenta para a
comunicação e aprisiona quando, o que é proclamado sobre nós, vira sentença. O
caminhar e o falar parecem funcionar como um impulso para descobrirmos os
universos antes desconhecidos. Um anseio
de liberdade quase sempre em negociação com o medo. E assim caminhamos por toda
a vida até o momento do definitivo repouso.
Agora
vamos nos transportar para a frente do mar, ou melhor, imaginemos que agora
estamos diante do mar pela primeira vez.
Olhando aquela imensidão aquática e pensando o que pode haver ali,
submerso. Sentimos desejo de mergulhar,
sabemos nadar, sentimos vontade de esticar o corpo para frente e para os lados,
embalados pelo suave barulho das ondas. Experimentamos
uma vastidão de sentimentos ambíguos como o prazer de avançar pelo oceano
aberto e o temor do desconhecido. Sentimos
prazer e medo. Prazer pela possibilidade
de nos libertarmos do peso de nosso corpo, circunscrito ao apoio dos pés
fixados na terra e medo pelo que pode existir na profundidade do oceano vasto e
livre. O encontro com a possibilidade de liberdade é assim, como um homem na
frente do oceano: pode sentir-se livre ao adentrar nele, mas precisa ter
responsabilidade para acatar o desconhecido e preservar a vida.
Libertar-se
é um exercício de força. Força para
conversar com a angústia inexorável que nos habitará sempre nos momentos de
escolha e decisão. Os poetas libertam-se
pela via da palavra que despertam sentimentos. Os atores pela incorporação
vasta de poderem viver outras vidas e estarem em outro alguém. Os filósofos
pela vastidão da compreensão do pensamento humano, que é como um mar bem fundo
a ser descoberto. Os cientistas por construir conhecimento para melhorar a vida
humana. Os músicos quando caminham pela
matemática libertadora e sensível do
som. Os profissionais da saúde quando acolhem o corpo e alma para oferecer
cuidado. E todos nós, ainda valorativos mortais, quando experimentamos buscar
sentidos autênticos e desacorrentados para nossas existências.
Meu mergulho termina por
aqui com as palavras de Osho:
"Dizem que antes de um rio
entrar no mar, ele treme de medo. Olha para trás, para toda a jornada que
percorreu, para os cumes, as montanhas, para o longo caminho sinuoso que
trilhou através de florestas e povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto,
que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre. Mas não há outra
maneira. O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na
existência. O rio precisa de se arriscar e entrar no oceano. E somente quando
ele entrar no oceano é que o medo desaparece, porque apenas então o rio saberá
que não se trata de desaparecer no oceano, mas de tornar-se oceano."
Andreia Maraglia

Lindo texto. Me transportei.
ResponderExcluirParabéns, Andreia! Seus textos clamavam por um blog. Continue escrevendo, postando. Um forte abraço.
ResponderExcluirObrigada, querido amigo.
ExcluirParabéns Déia querida, seus textos são belíssimos. Um grande beijo.
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