domingo, 7 de abril de 2019

O tempo das colheitas


O tempo das colheitas

Já tive uma horta.  Em meu sítio no alto da serra havia um espaço onde começamos a cultivar hortaliças, legumes e verduras.  Quando comecei a tarefa de plantar as mudas e sementes, não acreditava muito no resultado.  Apenas me apoiei na frase: “Em se plantando tudo dá.” Expressão usada por Pero Vaz de Caminha, em sua carta escrita ao rei Dom Manuel, para descrever as terras brasileiras.  Pois bem, depois de alguns meses lá estavam os lindos alimentos que cultivamos sem muita esperança de colheita.
Aprendi alguma coisa com a horta.  Plantei as sementes e, dia após dia, olhava o desenrolar dos acontecimentos.  Algumas vezes não conseguia ver resultados, nada crescia de forma rápida, a natureza tinha seu modo de ser.  Todos os dias, às vezes ansiosamente, remexia, olhava a terra, investigava pragas, adicionava adubo e muitas outras coisas.  A natureza, ainda assim, continuava no seu ritmo próprio fora de meu ilusório controle.  Claro que todos estes cuidados ajudavam a tarefa do meio ambiente a fortalecer as plantas, mas não ditava as regras.  Descobri que eu não ditava as regras.
Numa ensolarada manhã acordei e fui direto aos canteiros.  Extasiada observei que os primeiros caules e algumas folhas brotavam da terra.  Pulei de alegria.  Era como se tivesse acertado em cheio um bilhete de loteria.  Era uma experiência nova.  Cuidar de uma horta e plantar a própria comida é algo que todo humano deveria fazer pelo menos uma vez na existência.  Senti como se fizesse parte do processo e muito próxima da simplicidade da vida. 
O homem afastou-se de sua natureza mais própria.  Tornou-se um ser desconexo das interações orgânicas do viver.  Transformou o mundo a partir de desejos de poder e controle.  Enlatou e plastificou tudo.  Em tempos idos, dominar a natureza era sinal de inteligência e poder. Acredito que não preciso enumerar aqui os estragos que fizemos no planeta e as consequências disso.  Nesta crônica quero me deter em nosso desejo de controle.  Foi isto que minha horta me ensinou.
Os humanos, na aventura da existência, são seres vulneráveis, transitórios, mortais e angustiados.  A cronologia, estudo do tempo, tem por objetivo datar acontecimentos, agrupando-os de maneira lógica e sequencial.  Antigamente, os calendários das sociedades e civilizações eram baseados no ritmo das atividades agrícolas.  Curioso observar que o calendário, criado pelo homem, se baseava originalmente no ritmo da agricultura.  A natureza, junto à atividade do homem cadenciavam o tempo. 
O ritmo da horta me ensinou que a natureza tem uma dança muito particular e muito mais holística que o calendário humano.  Este ritmo é global e vai além de nossa capacidade de mensuração e controle.  A vida é assim, impossível de ser controlada em sua totalidade.  O homem pode ajudar a si mesmo e contribuir para um melhor resultado de sua colheita refletindo e escolhendo melhor, mas jamais pode prever um resultado exato.
Durante os dias de espera do crescimento das verduras e legumes aprendi que minha tarefa era, para além de contribuir com o tempo da natureza, aceitar seu ritmo e as inconstâncias do ambiente.  Estava eu diante de alguma coisa que não podia controlar, só podia cuidar.  Isto vale para a horta e para a vida humana como um todo.  Há sempre algo que não podemos controlar.  A tentativa de controle pleno é uma ilusão.
Alguma coisa sempre nos escapa ou cresce para além de nossas expectativas.  A vida sempre nos diz algo.  Para que possamos observar a comunicação da vida é preciso abandonar a vigilância excessiva.  Claro que somos, a todo instante, convocados a fazer escolhas, mas isso é diferente de controlar.  As escolhas humanas não estão separadas do ambiente, a natureza da vida nos contextualiza sempre.  O mundo se comunica conosco, nós somos o mundo e ele é maior do que nós.  Para compreendê-lo e aceitar seu ritmo é preciso abrir mão da necessidade de controle. 
A autonomia de meus canteiros de hortaliças também me ensinou que é preciso rever nosso papel nas diferentes nuances de nossa própria existência.  Cada momento presente tem características próprias. O presente nos exige escolhas refletidas e claras sobre a natureza das coisas de forma constante. Quando nos preocupamos excessivamente com os resultados futuros, nos distanciamos do clamor da circunstância presente.  Nos distanciamos de nós mesmos e da possibilidade de escolha mais plena. Nos perdemos no tempo.
Da mesma forma, quando nos aprisionamos às lembranças dolorosas do passado, saímos da cena atual para nos estagnarmos na dor de outrora.  A dor revivida constantemente pode distorcer a realidade. É preciso emprestar palavras à dor para parar de sofrer. Porém, ao nos depararmos com a dor do passado, faz-se necessária uma apropriação das experiências que nos oferecem aprendizado. É importante lembrar sem incorporar a dor e refletir sobre a experiência como ferramenta para a vida, não deixar a dor do passado corroer novamente no presente.  Vitimizar-se jamais.
Agora estou rindo por aqui ao saber a confusão que nós humanos fazemos ao lidar com o tempo.  Esperamos ansiosamente pelo futuro, tentando controlar as circunstâncias para obtermos um resultado de acordo com nossas expectativas. Sofremos em nosso encontro com as intercorrências da vida e com nossa impotência diante de facticidades diversas. Lamentamos os erros do passado, choramos uma lágrima que não mais existe.  Nos culpamos.  Desta forma, deixamos de viver o único instante real: o presente. 
A horta verdinha acabou em poucas semanas.  Foi delicioso saborear alfaces, tomates, manjericão, salsa, cebolinha, beterrabas, jilós e muitos outros vegetais frescos e sem aditivos químicos. Bons para a saúde do presente e do futuro.  Esta primeira horta foi um presente que passou.  Comecei a cultivar uma segunda horta que será, certamente, um outro presente que virá.







Bibliografia disponível em:

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/cronologia/ Acesso em 11 de março de 2019

4 comentários:

  1. Assim como vc a natureza é linda, sutil, poderosa e criativa! A natureza é arte e didática, adorei o texto, parabéns bjao

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    1. Querida amiga, fico feliz que tenha gostado. Beijo grande!

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  2. Amei todos os textos! Eles têm leveza e delicadeza com um toque de profundidade, na medida, assim como você. Me fizeram refletir sobre a vida! Parabéns! Bjs

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