O
tempo das colheitas
Já
tive uma horta. Em meu sítio no alto da
serra havia um espaço onde começamos a cultivar hortaliças, legumes e
verduras. Quando comecei a tarefa de
plantar as mudas e sementes, não acreditava muito no resultado. Apenas me apoiei na frase: “Em se plantando
tudo dá.” Expressão usada por Pero Vaz de Caminha, em sua carta escrita ao rei
Dom Manuel, para descrever as terras brasileiras. Pois bem, depois de alguns meses lá estavam
os lindos alimentos que cultivamos sem muita esperança de colheita.
Aprendi
alguma coisa com a horta. Plantei as
sementes e, dia após dia, olhava o desenrolar dos acontecimentos. Algumas vezes não conseguia ver resultados,
nada crescia de forma rápida, a natureza tinha seu modo de ser. Todos os dias, às vezes ansiosamente, remexia,
olhava a terra, investigava pragas, adicionava adubo e muitas outras
coisas. A natureza, ainda assim,
continuava no seu ritmo próprio fora de meu ilusório controle. Claro que todos estes cuidados ajudavam a
tarefa do meio ambiente a fortalecer as plantas, mas não ditava as regras. Descobri que eu não ditava as regras.
Numa
ensolarada manhã acordei e fui direto aos canteiros. Extasiada observei que os primeiros caules e
algumas folhas brotavam da terra. Pulei
de alegria. Era como se tivesse acertado
em cheio um bilhete de loteria. Era uma
experiência nova. Cuidar de uma horta e
plantar a própria comida é algo que todo humano deveria fazer pelo menos uma
vez na existência. Senti como se fizesse
parte do processo e muito próxima da simplicidade da vida.
O
homem afastou-se de sua natureza mais própria.
Tornou-se um ser desconexo das interações orgânicas do viver. Transformou o mundo a partir de desejos de
poder e controle. Enlatou e plastificou
tudo. Em tempos idos, dominar a natureza
era sinal de inteligência e poder. Acredito que não preciso enumerar aqui os
estragos que fizemos no planeta e as consequências disso. Nesta crônica quero me deter em nosso desejo
de controle. Foi isto que minha horta me
ensinou.
Os
humanos, na aventura da existência, são seres vulneráveis, transitórios, mortais
e angustiados. A cronologia, estudo do
tempo, tem por objetivo datar acontecimentos, agrupando-os de maneira lógica e
sequencial. Antigamente, os calendários
das sociedades e civilizações eram baseados no ritmo das atividades
agrícolas. Curioso observar que o
calendário, criado pelo homem, se baseava originalmente no ritmo da
agricultura. A natureza, junto à
atividade do homem cadenciavam o tempo.
O
ritmo da horta me ensinou que a natureza tem uma dança muito particular e muito
mais holística que o calendário humano.
Este ritmo é global e vai além de nossa capacidade de mensuração e
controle. A vida é assim, impossível de
ser controlada em sua totalidade. O
homem pode ajudar a si mesmo e contribuir para um melhor resultado de sua
colheita refletindo e escolhendo melhor, mas jamais pode prever um resultado
exato.
Durante
os dias de espera do crescimento das verduras e legumes aprendi que minha
tarefa era, para além de contribuir com o tempo da natureza, aceitar seu ritmo
e as inconstâncias do ambiente. Estava
eu diante de alguma coisa que não podia controlar, só podia cuidar. Isto vale para a horta e para a vida humana
como um todo. Há sempre algo que não
podemos controlar. A tentativa de
controle pleno é uma ilusão.
Alguma
coisa sempre nos escapa ou cresce para além de nossas expectativas. A vida sempre nos diz algo. Para que possamos observar a comunicação da
vida é preciso abandonar a vigilância excessiva. Claro que somos, a todo instante, convocados
a fazer escolhas, mas isso é diferente de controlar. As escolhas humanas não estão separadas do
ambiente, a natureza da vida nos contextualiza sempre. O mundo se comunica conosco, nós somos o
mundo e ele é maior do que nós. Para
compreendê-lo e aceitar seu ritmo é preciso abrir mão da necessidade de
controle.
A
autonomia de meus canteiros de hortaliças também me ensinou que é preciso rever
nosso papel nas diferentes nuances de nossa própria existência. Cada momento presente tem características
próprias. O presente nos exige escolhas refletidas e claras sobre a natureza
das coisas de forma constante. Quando nos preocupamos excessivamente com os
resultados futuros, nos distanciamos do clamor da circunstância presente. Nos distanciamos de nós mesmos e da
possibilidade de escolha mais plena. Nos perdemos no tempo.
Da
mesma forma, quando nos aprisionamos às lembranças dolorosas do passado, saímos
da cena atual para nos estagnarmos na dor de outrora. A dor revivida constantemente pode distorcer
a realidade. É preciso emprestar palavras à dor para parar de sofrer. Porém, ao
nos depararmos com a dor do passado, faz-se necessária uma apropriação das
experiências que nos oferecem aprendizado. É importante lembrar sem incorporar
a dor e refletir sobre a experiência como ferramenta para a vida, não deixar a
dor do passado corroer novamente no presente.
Vitimizar-se jamais.
Agora
estou rindo por aqui ao saber a confusão que nós humanos fazemos ao lidar com o
tempo. Esperamos ansiosamente pelo
futuro, tentando controlar as circunstâncias para obtermos um resultado de
acordo com nossas expectativas. Sofremos em nosso encontro com as
intercorrências da vida e com nossa impotência diante de facticidades diversas.
Lamentamos os erros do passado, choramos uma lágrima que não mais existe. Nos culpamos.
Desta forma, deixamos de viver o único instante real: o presente.
A
horta verdinha acabou em poucas semanas.
Foi delicioso saborear alfaces, tomates, manjericão, salsa, cebolinha,
beterrabas, jilós e muitos outros vegetais frescos e sem aditivos químicos.
Bons para a saúde do presente e do futuro.
Esta primeira horta foi um presente que passou. Comecei a cultivar uma segunda horta que
será, certamente, um outro presente que virá.
Bibliografia disponível em:
https://pt.m.wikipedia.org/wiki/cronologia/ Acesso
em 11 de março de 2019
http://historiasdagentebrasileira.com.br/site/em-se-plantando-tudo-da/ Acesso
em 11 de março de 2019

Assim como vc a natureza é linda, sutil, poderosa e criativa! A natureza é arte e didática, adorei o texto, parabéns bjao
ResponderExcluirQuerida amiga, fico feliz que tenha gostado. Beijo grande!
ExcluirAmei todos os textos! Eles têm leveza e delicadeza com um toque de profundidade, na medida, assim como você. Me fizeram refletir sobre a vida! Parabéns! Bjs
ResponderExcluirQuero mais poemas!!😙
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